domingo, 30 de outubro de 2016

É fácil amar o outro na mesa de bar, quando o papo é leve, o riso é farto, e o chope é gelado.
É fácil amar o outro nas férias de verão, no churrasco de domingo, nas festas agendadas no calendário do de vez em quando.



Difícil é amar quando o outro desaba. Quando não acredita em mais nada. 
E entende tudo errado. E paralisa. E se vitimiza. E perde o charme.
O prazo. A identidade. A coerência. O rebolado.
Difícil amar quando o outro fica cada vez mais diferente do
 que habitualmente ele se mostra
ou mais parecido com alguém que não aceitamos que ele esteja.



Difícil é permanecer ao seu lado quando parece que todos já foram embora. 
Quando as cortinas se abrem e ele não vê mais ninguém na plateia.
Quando o seu pedido de ajuda, verbalizado ou não, exige que a gente saia do nosso egoísmo, do nosso sossego, da nossa rigidez, do nosso faz-de-conta, para caminhar humanamente ao seu encontro.



Difícil é amar quem não está se amando.



Mas esse talvez seja, sim, o tempo em que o outro mais precisa se sentir amado. 
Eu não acredito na existência de botões, alavancas, recursos afins, que façam as dores mais abissais desaparecerem, nos tempos mais devastadores, por pura mágica. 
Mas eu acredito na fé, na vontade essencial de transformação, no gesto aliado à vontade, e, especialmente, no amor que recebemos, nas temporadas difíceis, 
de quem não desiste da gente.




Ana Jácomo
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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

35°, 34°, 33°, 32°, 31°, 30°;

Eu não sou boa em muitas coisas, nunca fui.
Mas eu amei. Corajosamente.
Amei com toda intensidade que meu coração permitiu que eu amasse.
Amei onde coube, onde não coube, onde fui convidada, onde entrei de penetra.
Amei por inteiro, amei de lavada, amei até ficar exausta, até ficar abatida, até ser destruída, 
até nascer de novo.
Mas eu não sou boa em muitas coisas, nunca fui.
Eu sempre tive o destaque que quiseram que eu tivesse.
Até o dia que não mais consegui.
Por que eu não sou boa em muitas coisas, nunca fui.
Porém, eu nunca fugi de briga, nunca me dei por satisfeita, entrava sempre para sair com a boca sangrando, joelhos ralados e feridas no estômago.
Eu encarei meus demônios, ou, ao menos, tentei encarar todos aqueles que conheci.  
Eu não sou boa em muitas coisas, nunca fui.
Meu humor sempre foi obscuro, minhas vontades imediatas e minhas paixões, violentas.
Nunca fui a mais bonita, a mais inteligente ou a mais educada. Nunca vou ser.
A subversiva que morou em mim jamais permitiu que eu me curvasse à perfeição.
Eu sempre vivi além da margem: de tudo que é bom, ruim, feio, belo.
E cada palpitar obstinado, infligido contra meu peito já frio, 
cavado pela mão relutante em me deixar ir, 
naquele pulso enluvado sujo de sangue, 
 onde o relógio já marca vinte e um minutos 
apenas me lembra que eu nunca fui entendida por não ser muito boa com as coisas, 
por nunca ter sido. 

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terça-feira, 25 de outubro de 2016

Sim ou não?

"Lembra da história que me contou sobre as borboletas, mãe?
Agora sei como é.
É amor, mamãe?
Te amo, amo Wan, mas nunca tive borboletas.
Não me lembro de ter tido.
Poderia me dar uma chance, mãe?
Por favor, dê uma chance a esse amor, quero saber se é verdadeiro.
Quero saber se me fará cair até quebrar as pernas e os braços.
Não quero ficar curiosa pelo resto da vida.

Encontrarei a resposta."

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A música da noite;

Não precisa fazer linha comigo, já nasci desalinhada;


Eu sou uma eterna apaixonada por palavras. Música. E pessoas inteiras. 
Não me importa seu sobrenome, onde você nasceu, quanto carrega no bolso. 
Pessoas vazias são chatas e me dão sono.
 Gosto de quem mete a cara, arrisca o verso, desafia a vida. 
Tem muita coisa dentro de você? 
Então jogue essa porra de identidade fora e senta aqui. 
Pára de falar da rave. Da viagem. Das 200 horas que ficou sem dormir ouvindo tuntztuntz. 
Ok, pode falar! Mas seja breve. 
Eu quero saber sobre você. 
VOCÊ! 
Você não é só uma festa, uma foto de orkut, um carro bonito que te custa caro.
 Você não é só um iphone, uma tv de plasma, uma notícia barata de jornal.
 VOCÊ É GENTE! 
E gente sente. Gente ama, sofre, sente sono. E tem medo. EU TENHO MEDO. 
Eu, na verdade, tenho muitos medos. 
E um deles é que as pessoas virem apenas uma IMAGEM. 
Não para os outros (que se fodam os outros!), mas para si mesmo. 
Meu Deus, aonde vamos parar? Antes que a conversa se estenda, quero esclarecer logo. 
Não sou hipócrita, veja bem. Também adoro um auê, uma frescurinha, champagne boa. Tenho um ego chato que apaga fotos em máquinas alheias. 
Fico emburrada se a calça jeans não entra. 
Brigo cá com meus defeitos (que são caros, fartos e meus). 
E acho que todo mundo também. 
Mas o que vim dizer hoje não é isso. Ou melhor, é sim. 
O que eu quero falar na verdade é que: A GENTE PODE SER BEM MAIS QUE ISSO. 
Que tal preocupar-se um pouco mais com SER do que com o TER, nem que seja pra variar? 
Me conte suas viagens, me mostre sua história, mas seja sincero: você detestou aquele lugar que todo mundo ama! VOCÊ ODIOU, na verdade. 
Então pra quê dizer que foi uma viagem “do caralho” e colar aquelas fotos com aquela gente cretina bem no meio do seu mural? 
Não precisa fazer linha comigo, nasci desalinhada, você sabe. 
Lembre-se de quem você era, DE QUEM VOCÊ É. 
(Você se lembra?). 
É sua essência, tudo o que há por trás desse sorriso lindo e óculos escuros. 
É minha gente. 
Estou naqueles momentos silenciosos em que pouca coisa parece fazer sentido. 
Sigo a vida conforme o roteiro, sou quase normal por fora, pra ninguém desconfiar. 
Mas por dentro eu deliro e questiono. 
Não quero uma vida pequena, um amor pequeno, um alegria que caiba dentro da bolsa. 
Eu quero mais que isso. 
Quero o que não vejo. 
Quero o que não entendo. 
Quero muito e quero sem fim. 
Não cresci pra viver mais ou menos, nasci com dois pares de asas, vou aonde eu me levar. Por isso, não me venha com superfícies, nada raso me satisfaz. 
Eu quero é o mergulho. 
Entrar de roupa e tudo no infinito que é a vida. 
E rezar – se ainda acreditar – pra sair ainda bem melhor do outro lado de lá.

(Fernanda Mello)

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(Foto do Projeto "Follow me")

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quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Go, Daddy, go;


De você eu herdei as respostas sarcásticas, a tagarelice, a paixão por música e livros e a dificuldade em expressar o amor por meios convencionais.

E tudo isso me dá um baita orgulho. 
Obrigada por sempre lutar por mim. 
Por nós. 

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sábado, 8 de outubro de 2016

Precisamos falar sobre términos;

Acabo de falar com uma amiga cujo relacionamento acaba de afundar.

Não é um texto sobre mim com o pretexto de falar sobre uma amiga, pois é texto é sobre nós duas. 

Ambas no mesmo estado de espírito: a de ver uma relação desmoronar.

Caralho, como isso é foda. 

E não to falando da dor só não, to falando de postura.

O mesmo discurso ensaiado, o mesmo discurso elegante: não é você, sou eu. 

Não que eu ache que as pessoas não tem o direito a ter o seu tempo, não que eu ache que as pessoas tem o direito de por as coisas no lugar. 

Sou prova disso. 

Tive um tempo e botei as coisas no lugar e foi bem sadio. 

O que mata no discurso elegante é ele dizer que ainda te ama, dizer que você é maravilhosa, dizer o quanto ele te quer bem e, pra te ver feliz, vai se afastar... e você fica: ??????????????

Yeap. 
E não estou falando de mim. 
É a fala dela que pego emprestada para retratar esse padrão comportamental incompreensível. 

Isso é de uma covardia sem tamanho.

Pois partimos do pressuposto que ambos se amam e ambos fazem a opção conjunta de construir uma relação, aquela, que não provém dos contos de fada e nem vem com rótulo de instruções, até que, unilateralmente, alguém aponta qual o melhor destino do outro. 

DO OUTRO.

Já não te vale mais qualquer opção ou argumento, não te resta mais nada a não ser juntar os caquinhos da sua dignidade e, confuso, mandar uma mensagem pra uma amiga pra tentar entender, uma vez que seu destino de felicidade de comercial de margarina acabou de ser traçado por outra pessoa: aquela que te ama mas não pode ficar com você porque quer você feliz... com outra pessoa.

E aí você fica naquela esperança, dia após dia, porque ele te ama, não ama? 
Ele pode voltar atrás, não pode? 
Ele pode reconsiderar e ver como éramos bons juntos, não é?

É de uma covardia sem precedentes. 

E não, linda.  Ele até pode mas não vai voltar atrás, pois o real motivo por trás do seu rompimento não era o tempo que ele precisava, não era a mãe doente, não eram as contas atrasadas: 
era você.


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Vida, amor, superação, humanos;

Uyara s2;

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Compositor de destinos, tambor de todos os ritmos;

"Nada disso é imperdoável."

Essa foi a frase dita pela minha terapeuta mais cedo, em uma narrativa sobre os fatos e descobertas das última semana.

A semana do crescimento silencioso, como eu batizei.

Porque pela primeira vez em muito tempo fiquei em silenciosa 
observação ao invés da habitual vociferação. 

E fiz a grande descoberta da minha vida emocional. 

Do dia 30 de setembro de 2016 ao dia 06 de outubro de 2016 houve 
a revelação pela qual eu ansiava há 25 anos.

 E isso me deixou maravilhada, machucada, esperançosa, perplexa e com uma gigantesca vontade de mudança do estado habitual. 

A conversa girou em torno de crescimento, maturidade, orgulho desmedido. culpa, bagagem emocional, instabilidade momentânea, cedência e perdão. 

E ao final de todo aquele choro e frases soluçadas, foi o que ela disse: 

"Nada disso é imperdoável...
Claro que não te te eximindo da culpa (PLAU! Achei que ia sair ilesa do puxão de orelha...), 
mas nada disso que você me falou é imperdoável...".

E ela não falava para mim e sim sobre mim.

 Um momento de dor colidindo com a descoberta e o perdão. 

Tanta coisa floresceu ali. Tanta coisa nasceu. Tanta coisa morreu. 
Tanta coisa chamou atenção para ser consertada e outras respostas que só o tempo pode trazer.

O tempo que cura, o tempo que transforma, o tempo que leva, o tempo que traz de volta.

Me perdoei. Aprendi a pedir perdão.

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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Lembrete;

Houve um momento em que abandonar, por mais traumático que parecesse, parecia a coisa mais sensata a se fazer. Abandonar quaisquer coisas: um relacionamento numa fase desanimada, a faculdade que exigia dedicação, um amigo que me dizia o que eu não queria ouvir, um emprego mal remunerado, uma frase que não queria virar poema, um ideal difícil de ser concretizado. Então eu virava as costas para tantas destas coisas e pessoas e circunstâncias e, hoje, jamais saberei o que teria acontecido se eu tivesse persistido um pouco mais. Porque abandonar, para mim, não era sinônimo de desistir, era tão mais prático e dinâmico.
O fato é que com o passar do tempo, vejo que as coisas que fluíram até a solidez foram as que vivi realmente e superei etapa por etapa. Foram as que estive presente mesmo quando o desconforto trazia cansaço.
Os livros que publiquei nasceram nas madrugadas em que eu queria estar dormindo, pois tinha que acordar cedo para o emprego mal remunerado no dia seguinte. Os amigos que permaneceram ao meu lado foram os que não abandonei quando eu estava fugindo de mim, quando tive que me despir de tal forma que eles puderam ver um lado meu muito limitado, mas continuaram me amando por causa e apesar de. O emprego mal remunerado que encurtava meu tempo de escritora, me trouxe experiência para o mercado de trabalho e solidificou a segunda faculdade que eu consegui terminar depois de abandonar a primeira. As frases que não queriam virar poemas hoje são guardadas e revisitadas quando um poema quer virar frase. Todos os sonhos que não deixei envelhecer estão sendo realizados. O relacionamento amoroso que requer compreensão e paciência, às vezes, maiores que o próprio amor, me conduz ao amor próprio e ao autoconhecimento e, com a persistência que arranquei de não sei onde, quando eu só sabia voar, descobri o descanso no pouso. O afago do ninho. A liberdade que é possível viver a dois: “estar contigo e não estar contida”.
Abandonar era a minha solução mais rápida. E a maneira menos criativa e corajosa de crescer. Ir embora do crescimento era tudo o que eu sabia fazer. Virar as costas para responsabilidades e certa rotina necessárias para brincar: de viver, de amar, de escrever, de ser qualquer coisa ilusória e não ter nada concreto, mas milhares de projetos imaginários.
Penso sobre isso hoje, enquanto os dias escurecem às 22h no verão da Europa e eu posso tomar um chá no jardim vendo o pôr-do-sol, simplesmente porque não abandonei tudo durante a minha dificuldade em me sentir confortável no rigoroso inverno.
Penso nisso quando olho praquele moço de olho azul e personalidade forte como a minha, me olhando da sala enquanto escrevo este texto no quarto e que, de tempos em tempos, se levanta para me dar um beijo ou me fazer rir: eu quase abandonei este moço com o inverno, a Europa e tudo o mais que eu não sabia que melhoraria e me faria crescer imensamente porque eu só sentia saudade: de tudo que não era novidade.
Eu quase desisti de viver isso que posso, finalmente, chamar de vida: sonhada, persistida, sendo realizada.
Marla de Queiroz

Pessoas são substituíveis;

Não, não fui convencida da noite para o dia.

Ainda acho pessoas insubstituíveis.

Mas o clichê da vida dá aquela batidinha na porta e te esbofeteia até você cair sangrando no chão. 

E vai embora.

Pessoas são substituíveis.

Somos defeituosos de fábrica, e assim, trocados quando os vícios redibitórios aparecem e já não há tanto encanto.

Somos trocados por alguém novinho em folha. Alguém com um saudável histórico.

Tudo bem (venho repetindo essas duas palavras já no automático). Não é errado. 

As tentativas se tornam falhas, vem a dor e não aguentamos.

Pessoas são substituíveis.

Vem sem aviso, sem abrigo e somos deixados no meio da tempestade sem qualquer proteção.

Pessoas são substituíveis.

Se está quebrado, compre um novo amor. Consuma até que já não reste tanta história. E aí é hora de comprar outro e outro, até que fartos, nos cortamos e dobramos pra caber em algum que nos mostre uma dose de conforto.

Sem amor de verdade pra você. Não agora. Agora pessoas são substituíveis.

Sorte aos amores que resistiram às quedas e quebras. Aos que ainda feridos, lutaram bravamente. 

E aos que desistiram bravamente também, aos que lutaram até onde lhes foi possível, até onde a dor permitiu suportar.

Pois pessoas são substituíveis e tudo bem.

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Você só me fez mudar, mas depois mudou de mim;

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Pessoas não são substituíveis;


Em que pese a máxima de frases de efeito sobre superação e músicas de divas do pop,
 pessoas não são substituíveis.
Não são. 
E não há nada do que tenha visto até hoje me convença do contrário.
E sendo minha própria cobaia vejo que o mundo seria um lugar mais fácil de se viver se assim o fosse.
Bem mais frio e cinza, com menos declarações de amor feitas pela madrugada 
e bilhetes de viagem comprados por impulso. Mas ainda assim, mais fácil. 
Há quem o prefira e eu não julgo.
Mas pessoas não são substituíveis.
Não são.
Eu poderia ter os melhores tutores que o dinheiro pode comprar, poderiam bater à minha porta e dizer "A partir de hoje você é filha do casal Gates.", e por mais legal que fosse poder comprar uma ilha no Caribe ou ter um pônei no quarto, ainda assim, 
nada no mundo ia continuar se comparando à voz do meu pai a me contar sobre a ditadura
 enquanto toca Geraldo Azevedo ao fundo.
Nenhum toque no mundo ia continuar sendo páreo ao da mão quente da minha mãe 
me consolando após as crises de choro por uma cólica renal ou um coração partido. 
Pessoas não são substituíveis
Não são. 
Cada um carrega uma história, que ao ser partilhada a dois, a três, a dez, a sós,
 nunca mais volta a ser como era. 
E aí partimos aos clichês que há apenas um de nós na vastidão do universo. 
Arrogância ou consolo, eis à porta uma verdade.   
Pessoas não são substituíveis.
Não são.
Não se substitui os sentimentos bons ou ruins que alguém um dia produziu em nós. 
Concordo que há as pessoas por quem vale a pena lutar e as que não valem o esforço,
 mas até os calhordas tem seu valor inegável. 
Afinal, o que não vira benção, vira lição.
Mas pessoas não são substituíveis.
Não são.
Não há lobotomia que chegue ou textão de auto ajuda que me convença do contrário.
Lembro dos numerosos conselhos pós pé na bunda que já levei com altos níveis de logo você esquece 
e parte pra outra, ou ainda o meu favorito: amor com outro amor se cura. 
Não que cada um vá se prender infinitamente a algo ou alguém que não faça bem, 
em relacionamentos abusivos ou simplesmente em que o afeto não mais existe. 
Mas esse é o ponto chave.
É como matemática: a regra é pertencer ou não pertencer. 
Pra mim, para o amor não há cura e para a dor há o tempo. Apenas. 
Uma pessoa é seu próprio infinito. 
Ainda que se reproduza o tom do cabelo, o jeito de andar e as falas fabricadas, 
não se reproduz o beijo dado, o sexo feito, a piada dita no momento oportuno 
ou o frio na barriga daquele primeiro encontro.
Então não me diga que somos substituíveis, porque não, não somos. 

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terça-feira, 4 de outubro de 2016

E se você me pedisse;



E se você me pedisse, eu me casaria, todos os dias, com você. 
Eu me casaria com o teu banho demorado, o teu jeito de por os talheres no prato, com os teus óculos sujos, com a tua teimosia charmosa.
Eu me casaria, todos os dias, com as pintas das tuas costas, com o teu jeito de relaxar a face ao dormir, com as tuas convicções do mundo que tanto fizeram eu te admirar.
Se você me pedisse, por mais baixinho que fosse, eu me casaria, todos os dias, com as tuas perguntas descabidas, com as tuas inseguranças tolas, com a bagunça que você deixa na cama, com o teu calor pela manhã. 
E se você me pedisse, eu me casaria, todos os dias, com você. 

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Diferente;

Você é diferente.
Enquanto as outras pessoas pessoas conhecem apenas as ranhuras superficiais, você ficou com a missão de conhecer a carne viva, os buracos a bala, os cortes traumáticos.
E isso não te abala. Não nos abala.
Você me encoraja. Quero te encorajar também.

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segunda-feira, 3 de outubro de 2016

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Programados por melancolias diárias, 
quando achamos um pequeno sopro de esperança em uma avenida movimentada 
e dai por diante cremos estar imunes às grandes inundações de tristezas.
Mas nunca se está suficientemente a salvo da dor.
Você busca por uma mão, mas não há nenhuma.
Nenhum abrigo, nenhum porto seguro, sem bote de salvação pra você.
É aquela máxima de que a vida não vem em conta gotas.

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Sempre um par;

Poderíamos casar, 
teríamos um apartamento, 
tomaríamos café as cinco da tarde, 
discordaríamos quanto a cor das cortinas, 
não arrumaríamos a cama diariamente, a geladeira seria repleta de congelados e coca-cola, o armário, de porcarias,
 adiaríamos o despertador umas trinta vezes, 
sentaríamos na sala de pijama e pantufas, 
sairíamos pra jantar em dia de chuva e chegaríamos encharcados, 
nos beijaríamos no meio de alguma frase, 
você pegaria no sono com a mão no meu cabelo e eu, escutando sua respiração.
 Eu riria sem motivo e você perguntaria porque, eu não responderia, saberíamos.

(Caio Fernando Abreu)

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