quarta-feira, 25 de maio de 2016

A vida é maravilhosa, mesmo quando dolorida.
 Eu gostaria que na correria da época atual a gente pudesse se permitir, criar, uma pequena ilha de contemplação, 
de autocontemplação, de onde se pudesse ver melhor todas as coisas: com mais generosidade, mais otimismo, mais respeito, mais silêncio, mais prazer.
 Mais senso da própria dignidade, não importando idade, dinheiro, cor, posição, crença. 
Não importando nada.

(Lya Luft)

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sábado, 21 de maio de 2016

Remar, ainda que em barcos de papel;


Já não sei dizer se ainda sei sentir.
 O meu coração já não me pertence, já não quer mais me obedecer! 
Parece agora estar tão cansado quanto eu.
 Até pensei que era mais por não saber que ainda sou capaz de acreditar. 
Me sinto tão só e dizem que a solidão até que me cai bem. 
Às vezes faço planos, às vezes quero ir para algum país distante e voltar a ser feliz! 
Já não sei dizer o que aconteceu se tudo que sonhei foi mesmo um sonho meu. 
Se meu desejo então já se realizou o que fazer depois, pra onde é que eu vou?
Eu vi você voltar pra mim
Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também.
Tá me entendendo? 
Eu sei que sim. 
Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou. 
Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso preciso saber se você vai também. Porque sozinha, não vou. 
Não tem como remar sozinha, eu ficaria girando em torno de mim mesma.
 Mas olha, eu só entro nesse barco se você prometer remar também! 
Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. 
Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia. 
Mas você tem que prometer que vai remar também, com vontade! 
Eu começo a ler sobre política, futebol, ficção científica, o que for. 
Aprendo a pescar, se precisar. Mas você tem que remar também.
 Eu desisto fácil, você sabe. 
E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir. 
Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. 
Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo. 
Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir.
 Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. 
Eu te ensino a nadar, juro!
 Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, 
que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças!
Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena. 
Que por você vale a pena.
 Que por nós vale a pena.

Remar.
Re-amar.
Amar.

(Caio Fernando Abreu)

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sábado, 7 de maio de 2016

Sou menina levada, princesa de rua;


Eu sou criança. E vou crescer assim. Gosto de abraçar apertado, sentir alegria inteira, inventar mundos, inventar amores. Acho graça onde não há sentido. Acho lindo o que não é. O simples me faz rir, o complicado me aborrece. O mundo pra mim é grande, não entendo como moro em um planeta que gira sem parar, nem como funciona o fax. Verdade seja dita: entender, eu entendo. Mas não faz diferença, o mundo continua rodando, existe a tal gravidade, papéis entram e saem de máquinas, existem coisas que não precisam ser explicadas. (Pelo menos para mim).


O que importa é o que faz os meus olhos brilharem, o coração bater forte, o sorriso saltar da cara. Eu acho que as pessoas são sempre grandes e às vezes pequenas, igual brinquedo Playmobil. Enxergo o mundo sempre lindo e às vezes cinza, mas para isso existem o lápis-de-cor e o amor que a gente aprendeu em casa desde cedo. Lembra?
Tenho um coração maior do que eu, nunca sei minha altura, tenho o tamanho de um sonho. E o sonho escreve a minha vida que às vezes eu risco, rabisco, embolo e jogo debaixo da cama (pra descansar a alma e dormir sossegada).



Coragem eu tenho um monte. Mas medo eu tenho poucos. Tenho medo de filme de terror, tenho medo das pessoas, tenho medo de mim. Minha bagunça mora aqui dentro, pensamentos entram e saem, nunca sei aonde fui parar. Mas uma coisa eu digo: eu não páro. Perco o rumo, ralo o joelho, bato de frente com a cara na porta: sei aonde quero chegar, mesmo sem saber como. E vou. Sempre me pergunto quanto falta, se está perto, com que letra começa, se vai ter fim, se vai dar certo. Sempre pergunto se você está feliz, se eu estou linda, se eu vou ganhar estrelinha, se eu posso levar pra casa, se eu posso te levar pra mim, se o café ficou forte demais. Eu sou assim. Nada de meias-palavras. Já mudei, já aprendi, já fiquei de castigo, já levei ocorrência, já preguei chiclete debaixo da carteira da sala de aula, mas palavra é igual oração: tem que ser inteira senão perde a força.



Sou menina levada, princesa de rua, sou criança crescida com contas para pagar. E mesmo pequena, não deixo de crescer. Trabalho igual gente grande, fico séria, traço metas. Mas quando chega a hora do recreio, aí vou eu... 
Beijo escondido, faço bico, faço manha, tomo sorvete no pote, choro quando dói, choro quando não dói. E eu amo. Amo igual criança. Amo com os olhos vidrados, amo com todas as letras. A-M-O. Amo e invento. Sem restrições. Sem medo. Sem frases cortadas. Sem censura. Sem pudor. Quer me entender? Não precisa. Quer me amar? Me dê um chocolate, um bilhete, um brinde que você ganhou e não gostou, uma mentira bonita pra me fazer sonhar. Não importa. Criança não liga pra preço, não liga pra laço de fita e cartão de relevo. Criança gosta de beijo, abraço e surpresa!


(Fernanda Mello)

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Amar é Punk (e continua sendo);